Artigo Científico
Mecanismos de resistência a ß-Lactâmicos em
Pseudomonas aeruginosa
Fernanda Sant’Ana de Siqueira
CRBM 7655

INTRODUÇÃO

Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria móvel, em forma de bastonete, medindo cerca de 0,6 x 2,0mm. É Gram-negativa e ocorre como bactéria isolada, em pares e, em certas ocasiões, em cadeias curtas.
É um organismo saprófito difundido na natureza, particularmente em ambientes úmidos e dotado de pequeno potencial patogênico. No entanto, devido a sua habilidade de sobreviver em materiais inertes e sua resistência a muitos anti-sépticos e antibióticos, Pseudomonas aeruginosa tem se tornado um importante e freqüente patógeno nosocomial. De fato, em hospitais pias, equipamentos para terapia respiratória e soluções anti-séptica ou detergente podem agir como reservatórios para Pseudomonas aeruginosa.
Uma característica da Pseudomonas aeruginosa é a alta resistência a diversos tipos de antibióticos, seja ela intrínseca ou adquirida. A resistência apresentada por esses microrganismos é principalmente devido a baixa permeabilidade da membrana externa e aos sistemas de efluxo multidrogas. Além disso, Pseudomonas aeruginosa possui uma cefalosporinase cromossômica induzível pertencente a classe C de Ambler (Amp C ß-lactamase) e outras ß-lactamases secundárias (classes A, B e D).

OBJETIVO

O objetivo deste estudo é analisar esses mecanismos de resistência, suas características e ações para que se possa elucidar o comportamento bacteriano frente aos antibióticos.

PSEUDOMONAS AERUGINOSA

Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria aeróbia não fermentadora que deriva sua energia de processos oxidativos de carboidratos aos invés de fermentação. Pode crescer em meios de cultura contendo somente acetato como fonte de carbono e sulfato de amônio como fonte de nitrogênio. Além disso, embora sendo um aeróbio, ela pode crescer anaerobicamente e em algumas circunstâncias usar o nitrato

como fonte de elétrons. Forma colônias redondas e lisas de coloração esverdeada fluorescente produzindo às vezes odor adocicado. As culturas das amostras clínicas de paciente com fibrose cística normalmente originam colônias mucóides em conseqüência da superprodução de alginato, um exopolissacarídeo. Em geral, a identificação baseia-se na morfologia das colônias, na positividade da oxidase, na presença de pigmentos característicos e no crescimento a 42ºC.

EXAMES LABORATORIAIS DIAGNÓSTICOS

• Amostras de lesões cutâneas, pus, urina, sangue, líquor, escarro e outros, conforme o tipo de infecção.
• Esfregaços: bastonetes visualizados após coloração de Gram; no entanto, não há nenhuma característica morfológica específica que os diferencie de outros bastonetes Gram-negativos.
• Cultura: é o teste específico para o diagnóstico de infecções por Pseudomonas aeruginosa; como ela não fermenta a lactose, é facilmente diferenciada das bactérias fermentadoras de lactose.

INDICAÇÕES LABORATORIAIS

Oxidase (+), ß-hemólise em agar sangue, odor e cor característicos, motilidade (+), crescimento a 42º C, redução de nitrato a nitrito (+), lisina descarboxilase (-), acetamida (+), malonato (+), citrato (+), indol (-), formação de ácido oxidativamente a partir da glicose e do manitol, incapacidade de oxidar maltose e lactose, DNAse (-), sensibilidade à polimixina ß.

MECANISMOS DE RESISTÊNCIA

O principal problema na infecção por Pseudomonas aeruginosa é que este organismo apresenta resistência natural e adquirida a diversos antibióticos. Essa múltipla resistência é principalmente causada pela baixa permeabilidade da membrana externa e expressão de bombas de efluxo.

Quatro sistemas de efluxo têm sido estudados – Mex AB OprM, Mex CD OprJ, Mex EF OprN e, mais recentemente, Mex XY OprM. Além disso, Pseudomonas aeruginosa também apresenta ß-lactamase cromossômica na presença de indutor adequado que confere elevada resistência a antibióticos ß-lactâmicos.
Um estudo demonstrou a possível inter-relação entre permeabilidade de membrana e produção de ß-lactamases em cepas de Pseudomonas aeruginosa resistentes a ß-lactâmicos. Portanto, é importante questionar qual desses fatores mais contribuem para o aparecimento da resistência aos antibióticos utilizados no tratamento de infecção por Pseudomonas aeruginosa.

SISTEMAS DE EFLUXO DE ANTIBIÓTICOS

A resistência intrínseca de bactérias Gram-negativas tem sido freqüentemente atribuída à presença de uma membrana externa; no entanto, essa barreira não pode ser a única responsável pelo perfil de resistência dessas bactérias.
Estudos recentes mostraram a existência de uma bomba de efluxo que desempenha o principal papel na resistência das bactérias gram-negativas.

SISTEMAS DE EFLUXO ATRAVÉS DE MEMBRANA DUPLA

A maioria desses sistemas de efluxo atravessam a membrana citoplasmática (denominada interna) e a membrana externa através de três componentes protéicos (fig. 1).

Revista do Biomédico               24               Julho/Agosto 2002