voltar

Freqüência de aloanticorpos e auto-anticorpos em pacientes politransfundidos atendidos pelo Hemonúcleo de Catanduva (Hemorede-Funfarme)
Leonardo Guizilini Plazas Ruiz

CRBM 1-7392
INTRODUÇÃO
A imuno-hematologia consiste em uma especialidade das análises clínicas que estuda os antígenos presentes nos elementos sanguíneos e anticorpos direcionados contra tais antígenos, definindo as propriedades e reações imunológicas entre os mesmos. A imuno-hematologia encontra-se intimamente relacionada com a medicina transfusional, envolvendo a transfusão de componentes sanguíneos e derivados. Através da realização de exames laboratoriais, avaliação dos resultados e de procedimentos adicionais ela fornece subsídios necessários para o estudo da patogênese, diagnóstico, prevenção e conduta em situações de imunização (sensibilização) associada à transfusão, gestação e transplante de órgãos (HENRY, 1999).
A pesquisa de anticorpos irregulares consiste na aplicação da técnica indireta da antiglobulina visando a triagem dos anticorpos direcionados aos antígenos de grupos sanguíneos, excluindo-se o ABO. O significado clínico dos anticorpos detectados dependerá da temperatura de reação, potência (grau de reatividade), classe de imunoglobulina e capacidade de ativação do sistema complemento. Geralmente, o anticorpo clinicamente significativo é reativo a 37° C e/ou fase de antiglobulina humana, portanto, sendo anticorpos de classe IgG ou IgM de grande amplitude térmica (GIRELLO, 2002).
A identificação dos anticorpos, previamente detectados nos exames de triagem, é realizada através da testagem de um painel de 11 hemácias reagentes contra o soro do receptor utilizando o teste de Coombs indireto. No Brasil, a maioria dos produtores fornecem painéis de células reagentes com 11 células, com o objetivo de atingir um intervalo de confiança de 99% na identificação de muitos dos anticorpos comumente encontrados (AABB, 1999). Entretanto, como é difícil assegurar que tenhamos no painel 3 células positivas ou negativas para cada um dos antígenos (Girello, 2002), células adicionais podem ter que ser testadas, e deverão ser obtidas de outros painéis ou células selecionadas, para uma melhor determinação da possível especificidade de certos anticorpos, particularmente aqueles dirigidos contra antígenos de baixa ou alta freqüência.
O teste de Antiglobulina Direto baseia-se na ligação da antiglobulina humana (presente no antisoro reagente) na fração constante dos eventuais anticorpos previamente ligados à membrana eritrocitária, determinando uma reação de hemaglutinação, uma vez que os anticorpos incompletos (ligados primariamente às hemácias) não são capazes de determinarem reações de aglutinações, necessitando da ligação da antiglobulina para que ocorra a reação. Este exame é aplicado nos seguintes casos: investigação de reações hemolíticas pós-transfusionais de caráter imunológico; doença hemolítica do recém-nascido; investigação de auto-anticorpos e pesquisa de anticorpos induzidos por drogas.
A Eluição é o processo utilizado para remover anticorpos ligados aos eritrócitos, sendo empregado quando um teste de antiglobulina humana direto tem resultado positivo e o anticorpo deve ser removido para posterior identificação.

OBJETIVOS
O estudo consistiu na avaliação imuno-hematológica e o monitoramento na identificação de aloanticorpos e auto-anticorpos em pacientes politransfundidos com concentrados eritrocitários, definindo o índice de imunização bem como a freqüência dos principais aloanticorpos e auto-anticorpos.

CASUÍSTICA, MATERIAL
E MÉTODOS

PACIENTES
Foi avaliado um grupo de 50 pacientes politransfundidos com concentrado de hemácias, entre eles crianças e adultos, homens e mulheres de diversas etnias, atendidos pelo Hemonúcleo de Catanduva (Hemorede da Fundação Faculdade Regional de Medicina de SJRP) durante o período compreendido entre abril de 2001 e outubro de 2002.
Os pacientes apresentavam patologias distintas, porém todos necessitando de suporte hemoterápico contínuo e apresentando positividade na pesquisa de anticorpos irregulares e/ou na técnica de antiglobulina direta.
As principais patologias de base foram doenças neoplásicas hematológicas e não hematológicas, anemias hemolíticas congênitas e adquiridas, insuficiência renal crônica, síndrome da imunodeficiência adquirida e pacientes necessitando de atendimento de urgência (pronto-socorro e centro cirúrgico).

OBTENÇÃO DE
AMOSTRAS BIOLÓGICAS
As amostras utilizadas para os exames foram obtidas através das técnicas convencionais de flebotomia sem a necessidade de preparo prévio dos pacientes, obtendo-se soro de sangue coletado em tubo seco, o qual foi destinado para a pesquisa e identificação dos anticorpos; e sangue total em tubo contendo anticoagulante (EDTA 10%), utilizado para os exames de técnica direta de antiglobulina e eluição ácida.

MÉTODOS

1 - PESQUISA DE ANTICORPOS
1 - IRREGULARES
Realizada através da transferência das hemácias reagentes (ID-Diacell I+II-Diamed) e soro do paciente (de acordo com protocolo específico) em microtubo contendo o soro antiglobulina humana, suspenso no gel (cartão ID-Liss/Coombs-Diamed) e posterior fase de incubação a 37ºC. Após fase de incubação, realizar centrifugação padronizada, leitura e interpretação dos resultados.
Os anticorpos eventualmente presentes no soro dos pacientes se ligarão aos seus respectivos antígenos existentes nas hemácias reagentes durante a fase de incubação. Durante o procedimento de centrifugação a antiglobulina humana, presente no anti-soro reagente, efetuará ligações às frações constantes destes anticorpos, formando um complexo, o qual permanecerá retido na matriz do gel, não se sedimentando no fundo do microtubo após o processo de centrifugação, evidenciando uma reação positiva que poderá apresentar diferentes intensidades, de acordo com escala de aglutinação padronizada, variando de 1+ a 4+.

2 - IDENTIFICAÇÃO DOS
2 - ANTICORPOS IRREGULARES
Realização da técnica indireta de antiglobulina humana, conforme descrito anteriormente na pesquisa de anticorpos irregulares, utilizando-se painel de hemácias de 11 células (ID-Diapanel-Diamed). Posteriormente, os resultados são comparados com o padrão fenotípico constante do antigrama que acompanha os eritrócitos reagentes, para que se encontre uma combinação de resultados que determine a possível especificidade do(s) anticorpo(s).

3 - TESTE DA ANTIGLOBULINA
3 - DIRETA OU COOMBS DIRETO
O método empregado consiste na transferência da suspensão de hemácias do paciente (de acordo com protocolo específico) para a matriz da reação (cartão ID-Liss/Coombs-Diamed), seguida de procedimento de centrifugação padronizado.
A antiglobulina efetuará ligação com os anticorpos incompletos opsonizantes dos eritrócitos, formando complexos os quais permanecem retidos na matriz do gel após o procedimento de centrifugação, caracterizando uma reação positiva que apresentará diferentes intensidades, seguindo escala padronizada, de intensidades variando de 1+ a 4+.

4 - ELUIÇÃO
A eluição de eritrócitos pode ser realizada através de vários métodos que alteram ou revertem as forças de atração que mantêm ligados o antígeno e o anticorpo, como a utilização de solventes orgânicos (éter ou clorofórmio), de soluções que alteram o pH (glicina ácida), e os que promovem hemólise por alteração da temperatura (congelamento ou aquecimento). O método utilizado foi o de eluição ácida.
De acordo com as instruções do fabricante (Elu-Kit/Gama), o teste deve ser realizado após a lavagem das hemácias, previamente sensibilizadas, com solução salina fisiológica, seguida de ciclos de lavagem com solução de trabalho (azida sódica 0,1%), reduzindo para um mínimo a quantidade de anticorpos dissociados das hemácias durante esta fase. Segue-se a adição da solução de eluição (tampão de glicina com pH baixo) às hemácias previamente lavadas e centrifugação, obtendo-se o eluato ácido no sobrenadante, o qual terá seu pH ajustado à faixa recomendada ao teste (6.4 a 7.6), através da adição da solução tampão (hidroximetil-aminometano, contendo albumina bovina e ázida sódica 0,1%), orientando-se por um indicador de pH de cor azul.

Finalmente, o eluato é testado através do teste indireto de antiglobulina (ID-Diacell I+II-Diamed e cartão ID-Liss/Coombs), visando a identificação dos anticorpos previamente ligados à membrana das hemácias. Um controle negativo também é realizado, testando-se as hemácias reagentes com o sobrenadante obtido do último ciclo de lavagem das hemácias dos pacientes.
Interpretação:
Positivo: reação positiva para as hemácias reagentes. Segue-se comparação dos resultados com o padrão fenotípico constante no antigrama das hemácias reagentes (ID-Diapanel-Diamed) para possível determinação da(s) especificidade(s) do(s) anticorpo(s).
Negativo: reação negativa para as hemácias reagentes .
Obs.: quando o eluato testado resultar negativo para todas as hemácias reagentes (e mediante a prévia negatividade em testes utilizando-se soros monoespecíficos anticomplemento) sugere-se a possibilidade de eventuais anticorpos induzidos por medicamentos. Nesse estudo não foram realizados testes com drogas específicas para a confirmação da suspeita, apenas foi sugerida a presença de auto-anticorpos induzidos por drogas.

RESULTADOS
Apresentamos uma avaliação de 50 pacientes portadores de diferentes patologias, todos necessitando de suporte hemoterápico contínuo, previamente politransfundidos com concentrado de hemácias. Estes pacientes apresentam positividade na pesquisa de anticorpos irregulares (técnica indireta da antiglobulina humana pelo método de gel teste) e/ou na técnica da antiglobulina humana direta (Coombs direto pelo método de gel teste).
Posteriormente, foi efetuada a identificação dos anticorpos, inicialmente detectados no soro, utilizando-se um painel de hemácias reagentes pela metodologia do gel teste e foram obtidos os seguintes resultados: dos 50 pacientes avaliados, 31 (62%) apresentavam aloanticorpos, dos quais foram identificados 11 (22%) anti-D, 6 (12%) anti-K, 5 (10%) IgG indeterminada, 4 (8%) anti-Leª, 2 (4%) anti-Jkª, 1 (2%) anti-E, 1 (2%) anti-Leú, 1 (2%) anti-Fyª; 19 (38%) apresentavam auto-anticorpos e destes 13 (26%) auto-IgG indeterminada e 6 (12%) sugestivo de auto-anticorpo induzido por drogas

Tabela 1. Avaliação das
especificidades dos anticorpos
detectados no Hemonúcleo de
Catanduva, durante o período
de Abril de 2001 a Outubro de 2002

DISCUSSÃO
Através dos resultados obtidos foi possível a avaliação de alguns aspectos de interesse na abordagem de pacientes imunizados e que necessitavam de repetidas transfusões com concentrados de hemácias.
Os anticorpos correspondentes aos antígenos do sistema Rh apresentaram maior freqüência (24% dos aloanticorpos detectados, sendo 11 anti-D e 1 anti-E). A alta incidência de anti-D deve-se ao fato da alta imunogenicidade do antígeno D, existindo a possibilidade de imunização em 80% para cada 10mL de concentrado de hemácias transfundidos (Melo, 1996). Alguns autores citam que apenas 1 mL já é capaz de induzir a aloimunização (ISSIT, 1999). Estes anticorpos reagem otimamente a 37° C e fase de antiglobulina humana (Girello, 2002), ocasionando reações hemolíticas tardias, e às vezes severas.
Em 12% dos casos o anticorpo detectado foi o anti-K (06 anti-K), os quais são reativos a 37° C e fase de antiglobulina humana, podendo ocasionar reações hemolíticas transfusionais (Henry, 1999); em 4% dos casos anti-Jkª (02 anti-Jkª), sendo os antígenos deste sistema de moderada imunogenicidade e os anticorpos envolvidos em severas reações hemolíticas imediatas e tardias em politransfundidos, pois podem ativar complemento (Daniels, 1988); em 2% dos casos anti-Fyª (01 anti-Fyª), anticorpos de classe IgG, fixadores de complemento, podendo causar reações transfusionais agudas e tardias (Girello, 2002).
A disponibilidade prévia de concentrados de hemácias fenotipados para antígenos dos sistemas Rh, Kell, Duffy e Kidd é importante para o atendimento dos pacientes politransfundidos, uma vez que os mesmos apresentam maior possibilidade de desenvolverem episódios de imunizações, estimada em 9% por unidade de concentrado de hemácias transfundida (Issit, 1999) e mediante a detecção de anticorpos irregulares, devem receber unidades de concentrados de hemácias antígenos negativas para os anticorpos correspondentes (Girello, 2002).
Para o atendimento cirúrgico destes pacientes imunizados, a amostra de sangue para a realização dos exames pré-transfusionais deve ser colhida antes da necessidade de transfusão, permitindo tempo necessário para seleção de unidades de concentrados de hemácias antígenos negativas correspondentes aos anticorpos detectados (Triulzi, 2002).
O elevado índice de auto-anticorpos (19, correspondendo a 38% do total de anticorpos detectados) promove interferências nos exames pré-transfusionais, dificultando a caracterização dos principais antígenos da membrana eritrocitária, sendo necessário nestas situações o uso de técnicas adicionais (cloroquina e/ou bloqueio) para a dissociação de auto-anticorpos IgG (Perdomo, 2003).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O monitoramento imuno-hematológico, através da triagem e identificação de aloanticorpos e auto-anticorpos antieritrocitários, em pacientes que necessitam de repetidas transfusões com concentrado de hemácias deve ser rigoroso, fazendo com que o hemocomponente possa ser adequadamente empregado para fins terapêuticos, evitando reações transfusionais inesperadas e atendendo a finalidade do estabelecimento da homeostase.

Leonardo Guizilini Plazas Ruiz
Biomédico, especialista em Patologia Clínica-ABBM e Análises
Clínicas-Famerp. Instituição: FUNFARME (Fundação Faculdade Regional de Medicina de São José do Rio
Preto Hospital de Base)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HENRY, J.B. Diagnósticos Clínicos e Tratamento por Métodos Laboratoriais. 19ª ed., São Paulo: Manole, 1999.1552p.
GIRELLO, A.L. Fundamentos da imuno-hematologia eritrocitária. 1ª ed., São Paulo: SENAC, 2002.205p.
TRIULZI, D.J. Terapêutica Transfusional-manual para médicos. 7ª ed., EUA: American Association of Blood Banks, 2002.142p.
FERREIRA, A.W.; ÁVILLA, S.L.M. Diagnóstico Laboratorial das principais doenças infecciosas e auto-imunes.1ª ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996. 302p.
ANTONIO JR, F. Indicações e cuidados nas transfusões de hemocomponentes e hemoderivados. São Paulo: JC Line, 2001.37p.
DANIELS, G. Blood Group Systems: Duffy,Kidd and Lutheran. Arlington, Virginia: American Association of blood banks. 1988. 119p.
L. MELO; J.A. SANTOS. “Sistema Rh”, em STD, vol. 5, Belo Horizonte, 1996.
VENGELEN- TEYLER V. Technical Manual 12 ed. Bethesda, American Association of Blood Banks, 1996. p 135-56.
P.D. ISSIT; D.J. ANSTEE. Applied Blood Group Serology. 4ª ed., Durham: Montgomery Scientific, 1999.
PERDOMO, RMA. Eficiência da associação das técnicas de cloroquina e bloqueio na dissociação de auto-anticorpos IgG. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, Rio de Janeiro, v.25, nº 2, p.227, 2003.
Technical Manual of the American Association of Blood Banks, 13ª ed., 1999.