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Regra equivocada

Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak

o persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”: este é o término de todas as mensagens dirigidas pela indústria farmacêutica diretamente ao consumidor final, o possível doente. Com isto, os mercadologistas pretendem ressalvar a responsabilidade pela automedicação que estão incentivando pois, afinal, se não melhorar, vá procurar quem entende do assunto. Não é mais lógico, razoável e racional procurar antes? Medicina não constitui uma coisa tão simples assim, desde que exige seis anos de curso e mais Residência, com algumas freqüência ocorrendo pós-graduação, para entender quando algo é importante e quando uma queixa não é. Podemos imaginar uma situação: criança com meningococcemia fulminante, que começa com febre e algumas pequenas pintas que podem nem mesmo ser percebidas. O distúrbio não rapidamente considerado e tratado é capaz de matar em períodos tão curtos quanto quatro a seis horas e, por vezes, o fato sucede mesmo ao chegar o paciente a excelentes médicos ou a ótimos pronto-socorros. A chance de alguém dar algumas gotinhas para febre e perder a “janela da oportunidade”, ou seja, o momento no qual o uso do remédio correto é apto para curar o paciente e evitar uam desgraça configura circunstância razoável, havendo possibilidade de não dar tempo para consultar o médico...
Se diz com alguma razão que muitas queixas freqüentes respondem a qualquer remédio, incluindo placebos, e que não temos

acesso ao sistema de saúde fácil, rápido e adequado para toda a população, afigurando-se nestas condições a automedicação um mal menor. Não concordamos com isto. Na dificuldade para tal acesso, há que providenciá-lo e, pelo menos no papel, o

Vicente
Amato Neto
Jacyr
Pasternak
Seria mais decente a indústria farmacêutica, na propaganda de qualquer medicamento, inclusive os mais banais, dizer que "antes de tomar qualquer remédio consulte o médico". É para isto que ele existe.

Sistema Único de Saúde (SUS) prevê acesso simples e solerte do paciente ao atendimento, com progressão por ele conforme a gravidade da afecção. Este é o elemento crítico que precisa ser enfrentado e resolvido.
Claro que, para a indústria farmacêutica, o

mercado que a automedicação representa é importante.
Melhor ainda se ela criar necessidades e demandas a seus produtos, livrando-se da intermediação dos profissionais de saúde. Estamos num País onde remédios que em países do primeiro mundo são extremamente controlados, ficam acessíveis em qualquer farmácia. Ninguém experimente comprar antibiótico sem receita médica nos Estados Unidos da América ou na Europa. Na verdade já temos muita gente praticando não apenas automedicação, quando quem prejudica-se em geral é apenas o cidadão que a faz, mas a heteromedicação: existem muitos leigos, feiticeiros amadores e vizinhos que adoram emprestar aquele remedinho que deu certo para a sua infecção urinária para o amigo com alguma coisa que parece igualzinha à que ele teve há algum tempo e, depois, especula-se como é que isto pode dar certo.
Seria mais decente a indústria farmacêutica, na propaganda de qualquer medicamento, inclusive os mais banais, dizer que “antes de tomar qualquer remédio consulte o médico”. É para isto que ele existe.
A ampla divulgação, através de meios de comunicação, da instrução contida na frase mencionada no início deste comentário quiçá contenha boa intenção, ao pretender coibir determinados abusos. Contudo, foi infeliz por propiciar o desvio basicamente criticado neste texto.


Os autores são médicos
e professores unviersitários.

 

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