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Ele vive a Biomedicina

Os biomédicos de todo o País e a Biomedicina em geral devem
muito do que são hoje à persistência de Marco Antonio Abrahão,
um líder incansável dessa profissão.

uas conquistas e vitórias em benefício da categoria servem de estímulo para seguir em frente. Obstáculos e eventuais insucessos não o enfraquecem. Ao contrário, injetam grandes doses de motivação para novas etapas. Batalhador incansável desde os tempos de estudante universitário, um dos grandes responsáveis pela regulamentação da profissão de biomédico — conquistada na época difícil da repressão e da ditadura no Brasil —, Marco Antonio Abrahão, presidente do Conselho Regional de Biomedicina, é um dos maiores líderes da Biomedicina no País. Sua longa caminhada e sua árdua luta começaram com o seu ingresso na faculdade, em 1974, e tudo prossegue até hoje, quase 29 anos após. Assim, praticamente há três décadas, ele vive integralmente a Biomedicina, sua razão de ser profissional.
Aos 52 anos, Marco Antonio Abrahão, presidente do Conselho Regional de Biomedicina - 1ª Região, continua tendo uma vida agitada, sobrando pouco tempo para dedicar-se à família: a esposa Teresa Cristina e os filhos adolescentes Rachel (22 anos), Moysés (21) e Rebeca (19).
Antes de a Biomedicina tomar conta da maior parte das horas de seu dia, Marco Antonio Abrahão teve uma loja de móveis por três anos e foi músico profissional. Como integrante da banda “Os Bicões”, tocava saxofone em festinhas, bailes de formatura — famosos na época —, e em programas que já fazem parte da história da televisão brasileira, como “Clube dos Artistas” e “Almoço com as Estrelas”, ambos comandados pelo casal Ayrton e Lolita Rodrigues, na extinta TV Tupi.

QUEBRA DE PROTOCOLO NO DIA DA FORMATURA

“O envolvimento com a carreira de biomédico começou em 74, quando iniciei meus estudos no curso de Ciências Biológicas - Modalidade Médica da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Barão de Mauá, hoje Universidade Mauá, em Ribeirão Preto”, recorda Abrahão. Durante os quatro anos de vida universitária ele sempre foi representante de classe, passando também a ser representante geral dos alunos da faculdade em 76 e 77.
Ao final do curso, Abrahão foi orador da turma de formandos. “E acabei quebrando o protocolo, pois em um dia de festa fiz um protesto, demonstrando insatisfação por não estar regulamentada a profissão: conquistamos um diploma sem valor”, disse. Até hoje, Abrahão guarda com carinho esse discurso que na parte principal registrava: “Nós, biomédicos, nos sentimos lesados, lesados em nossos direitos, direitos adquiridos

através do tempo, dedicação e gastos elevados. O que estamos reivindicando nada mais é do que senão o direito de sermos responsáveis por aquilo para o qual fomos treinados durante o nosso curso de graduação e o que hoje fazemos. Aproveito o momento para lançar de público o nosso mais veemente protesto contra a nossa atual situação profissional”.
Houve um choque na platéia. No fim, o jovem orador recebeu aplausos dos presentes e dos formandos. “E esses protestos acabaram virando rotina em todas as festas de formatura até a regulamentação da profissão, em 1979”, lembra.

LÍDER ESTUDANTIL CONDUZ A MARCHA RUMO A BRASÍLIA

Mas bem antes da formatura, Marco Antonio Abrahão passou a ser destaque no noticiário dos grandes jornais — O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo — por organizar a primeira caravana de estudantes à Brasília em busca dos direitos dos biomédicos. Em pleno regime ditatorial, o grupo postou-se com faixas na Praça dos Três Poderes, de fronte à rampa de acesso ao Palácio do Planalto, para aguardar a saída do presidente Ernesto Geisel, que estava recebendo em audiência especial um emissário do presidente da França, Giscard D’Estaing.
O serviço de segurança pediu ao grupo que recolhesse as faixas para evitar um constrangimento devido à visita do representante francês. Segundo o relato da Folha de S. Paulo, “os estudantes atenderam as ponderações da segurança, mas seu líder, Marco Antonio Abrahão, declarou-se disposto a abordar verbalmente o presidente Geisel a fim de expor-lhe suas reivindicações”.
Um jornalista levou o recado de Abrahão ao assessor de imprensa do presidente, Toledo de Camargo. Este decidiu ir ao encontro do líder estudantil e ambos conversaram por 10 minutos. Ainda segundo a Folha, “Abrahão pediu ao presidente para que interferisse no sentido de ser aprovado o projeto de lei que reconhecia a profissão de biomédico, alegando existir mais de quatro mil formados sem poder exercer a profissão”. Mais tarde, quando Geisel deixou o Planalto, aconteceu um fato de difícil repetição na história: foi aplaudido e acenou aos manifestantes.
Ainda quartoanista, Marco Antonio Abrahão foi sócio fundador da Associação Estadual dos Biomédicos, depois de ter participado da fundação da Associação Nacional dos Biomédicos. Dizia na oportunidade ao jornal “Diário” de Ribeirão Preto: “Cansados de esperar e marginalizados profissionalmente, os biomédicos procuram através de suas associações

fazer com que o projeto de lei 1660/75, que regulamenta esta profissão, tramite de forma legal e acelerada”. Foram necessárias várias outras idas a Brasília. A regulamentação só foi efetivada em 1979.

GRANDES CONQUISTAS E A CRIAÇÃO DOS CONSELHOS

Em outra grande luta Marco Antonio Abrahão foi o primeiro biomédico do País a obter o “Termo de Responsabilidade”, em dezembro de 1980. Antes, para abrir o seu laboratório, em 79, ele teve de associar-se a um médico para obter a regularização junto aos órgãos públicos.
De qualquer forma, desempenhando muitas atividades, Abrahão já era desde 78 chefe do Departamento de Patologia Clínica do Laboratório de Análises Clínicas da Policlínica Santa Amália, cargo que desempenhou até 89. Também instalou laboratórios de Análises Clínicas que dirigiu durante anos. Atualmente, leciona Administração de Laboratórios no Centro Universitário FMU.
Para cumprimento da legislação, foi criado em 1983 o Conselho Federal de Biomedicina, e seus primeiros conselheiros foram nomeados pelo ministro Murilo Macedo, do Trabalho. Abrahão passou a ser delegado da Sub-sede 1 - Núcleo Sul. Em 1990 o CFBM estabeleceu através resolução os Conselhos Regionais e Marco Antonio Abrahão foi indicado presidente da comissão provisória de constituição do CRBM - 1ª Região. Um ano após, ele foi eleito presidente da autarquia. Reeleito em 94 cumpriu mandato até 99. Novamente reeleito, prossegue sua luta e sua gestão vai até fevereiro de 2003.
Nesse período todo fez muitas palestras, participou de inúmeras reuniões com autoridades da área da Saúde, inclusive com o vice-presidente da República, Marco Maciel, com ministros de várias pastas, governadores de Estados e prefeitos, esteve em um sem número de congressos e simpósios em todo o País, fez crescer e solidificar-se o CRBM - 1ª Região, o maior do Brasil, e também incentivou, ajudou a criar e continua dando o seu apoio às associações paulista e brasileira de Biomedicina. Sempre em defesa da profissão e da categoria de biomédico.
“Quando nos perguntam como tanta coisa aconteceu, respondemos que não houve milagre e tudo foi resultado do trabalho, da seriedade, da vontade de fazer”, diz Marco Antonio Abrahão. “A Biomedicina é, para mim, opção de vida; acredito que alguém tem de fazer alguma coisa e que devemos cumprir nossas obrigações, mas jamais devemos abrir mão de nossos direitos”.