voltar

Falta de conscientização preocupa

Marcelo Abissamra Issas teme pelo futuro dos pequenos e médios laboratórios de análises clínicas.

á quase um ano, durante palestra na Conferência Regional de Biomedicina promovida pela Associação Paulista de Biomedicina (APBM), o biomédico Marcelo Abissamra Issas, profissional de larga experiência, secretário do Conselho Regional de Biomedicina (CRBM), defendeu o associativismo como caminho para a sobrevivência dos laboratórios de análises clínicas e fez previsões sombrias com relação ao futuro desses estabelecimentos.
“Em nome da brutal concorrência estão sendo promovidos nos últimos dois anos verdadeiros leilões negativos de preços. Isso só não ocorreu ainda no serviço público. A próxima etapa será a exigência de qualidade a preços baixos. Mas, sem condições de investir em programas de qualidade por conta da falta de disponibilidade, os laboratórios, principalmente os de médio e pequeno portes, vão quebrar. Infelizmente, as previsões são de que dentro de quatro ou cinco anos só restarão de 4 a 5 mil laboratórios no País”, afirmou Marcelo Issas na oportunidade.
“O Brasil segue o modelo americano. Temos hoje entre 10 a 11 mil laboratórios para uma população aproximada de 170 milhões de habitantes. Nos Estados Unidos hoje, com uma população de 270 milhões de habitantes, existem apenas cerca de 900 laboratórios. Conseqüentemente, aqui no Brasil, a redução de mercado tende a ser muito grande. Estudos já realizados prevêem grande redução de empresas e grau elevado de exigências de qualidade de serviços”, acrescentou.
Esse leilão negativo prossegue em 2002 em razão das enormes diferenças entre laboratórios. “Enquanto um tem tecnologia de ponta, o outro é primário; a variação de qualidade é brutal”, exemplifica. “O problema todo é esse.
Não dá para continuar como está. Ou se estabelece um patamar minimo de qualidade ou o processo de liquidação de laboratórios não vai parar”, adverte.

Indignação — Ao mesmo tempo em

“Sem condições de implementar mudanças rapidamente, a maioria dos laboratórios dificilmente sobreviverá”, prevê Marcelo Abissamra Issas

que faz o alerta, Marcelo Abissamra Issas não consegue esconder sua indignação com esse estado de coisas. “Infelizmente, falta consciência ao técnico e ou ao empresário do ramo. E parece que, apesar de toda a nossa luta, essa consciência dificilmente virá”. Marcelo é presidente da Qualilab-sp, uma associação de proprietários de laboratórios de análises clínicas que, quando lançada, em fevereiro de 2000, reuniu 114 estabelecimentos. O movimento foi minguando e agora em 2002 restam pouquíssimos participantes.
“Os tomadores de serviço assimilam a mentalidade que prevalece no Exterior e cada vez irão exigir mais qualidade”, diz o secretário do CRBM. De acordo com a tese que defendem, mesmo que o preço unitário seja maior, a economia no final do processo justifica esse preço, justamente por não haver o retrabalho.
O problema é que as exigências virão rapidamente, com um curto espaço de tempo para adaptação. “Sem condições de implementar mudanças rapidamente, a maioria dos laboratórios dificilmente sobreviverá”, prevê Marcelo. “Nós aqui no Brasil já chegamos ao preço mínimo e logo mais virão as exigências de obrigatoriedade de certificados de acreditação de programas de qualidade”.
Em Uberlândia, Minas Gerais, dos 11 laboratórios existentes, oito estão em busca da certificação. E assim ocorre em

outras cidades mineiras. No Rio de Janeiro isso também está acontecendo. Em São Paulo, não. “A qualidade dos laboratórios é preocupante. Se houver uma avaliação, surgirão problemas. Os laboratórios dão pouca atenção ao fato e não são penalizados pelas falhas. Dessa forma, o risco é grande diante da fragilidade dos laudos”, afirma Marcelo.
Quando surgiu, em janeiro de 2000, a portaria CVS 01 do Centro de Vigilância Sanitária — que impõe normas sobre o funcionamento dos laboratórios — provocou protestos. Marcelo Abissamra Issas também se colocou contra a medida na época, pela existência de exigências descabidas. “Mas o tempo passou e pouco foi feito para atendê-la. Hoje em boa parte ela já pode ser vista como uma necessidade. Toda norma assusta em princípio, mas com a adequação tudo vai se transformando. O movimento, no entanto, tem de ser de conscientização e não de normatização. A ordem é ficar atento, se adequar e primar pela qualidade”. Na portaria CVS 01, as normas ISO já são bem rigorosas. E Marcelo entende que os certificados de acreditação de laboratórios clínicos, como os fornecidos pela SBAC e SBPC, também serão exigidos em breve pelos tomadores de serviço.
Agora, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) abriu a consulta pública nº 67, de 19 de agosto de 2002, publicada no Diário Oficial da União de 4 de setembro, dando prazo de 40 dias para sugestões sobre portaria a respeito de normas de funcionamento de laboratórios. A nova norma é mais rigorosa, porém mais adequada à realidade dos laboratórios. O Conselho Regional de Biomedicina vai participar da consulta e pretende apresentar sugestões. “E fazemos questão da colaboração dos profissionais biomédicos nesse processo, com sugestões”, diz Marcelo Issas. Quem estiver interessado em conhecer detalhes sobre o assunto pode acessar o site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária: www.anvisa.gov.br