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Exército e do Dops em São Paulo. O fato de a gente denunciar cada caso e protestar contra os abusos, com o apoio da OAB, ABI, Arquitetos etc, os militares deixaram de seqüestrar e aqueles que eles queriam prender recebiam um ‘convite’ para comparecer às dependências do DOI-Codi. Já era um alívio, a família sabia onde a pessoa estava, podia procurar advogado etc. Mas o clima de opressão, de medo, se espraiava em ondas”, recorda Audálio.
“O Vladimir Herzog, apresentador da TV Cultura, soube que estava sendo visado. Dias antes de se apresentar espontaneamente no DOI-Codi foi à minha casa. Disse-lhe que o Sindicato estava de prontidão e poria a boca no mundo com toda força se houvesse um seqüestro, constrangimento, pressão. Outros jornalistas já estavam presos, o Sindicato buscava notícias deles quase todos os dias, e ele ficou de se apresentar no sábado, 25, dia em que eu faria uma palestra sobre Liberdade de Imprensa em Presidente Prudente (SP)”, acrescenta.

Mataram o Vlado – “Na madrugada de domingo fui acordado no hotel pelo Fernando Pacheco Jordão: ‘Mataram o Vlado’, dizia enquando chorava, sem saber dar maiores detalhes. Consegui um lugar extra em um avião, cadeirinha lateral para emergências. Fiz a viagem mais angustiada da minha vida. No vôo encontrei uma amiga querida, Elis Regina, que ficou horrorizada com a notícia e ofereceu a sua solidariedade.”
‘Comunista enforca-se na prisão’, deram os jornais de domingo. Notícia fornecida pelo DOI-Codi, mas nenhum jornalista acreditou na versão oficial. O Sindicato lotou. Foi feita uma nota oficial comunicando e lamentando o fato e considerando o preso uma responsabilidade daqueles que o tinham sob a sua guarda. “Nós estávamos morrendo de dor e de ódio, mas era preciso agir com cautela e moderação para evitar que o Governo aproveitasse algum passo em falso e fechasse o Sindicato. Aquele espaço era importante, precisávamos preservá-lo”, recorda Audálio.
O velório, no Hospital Albert Einstein, foi rápido, apressado, e o sepultamento no Cemitério Israelita do Butantan também. “Outro fato dramático foi a presença

– numa parte mais alta do cemitério, como autômatos, escoltados, alguns ainda com marcas de tortura física, enfileirados – dos seis companheiros jornalistas Rodolfo Konder, Paulo Markun, Diléa Frate, Marise Egger, Duque Estrada e Anthony Cristo, que tinham sido presos com Vlado. Os seis foram levados da cela para o cemitério, num ato de aparente magnanimidade, mas que, de fato, era uma outra face da tortura. Os seis ali, sofrendo, e fazendo aumentar mais a tensão e a dor de todo mundo”, acrescentou Dantas.
Em assembléia, no auditório que hoje tem o nome de Vladimir Herzog, o Sindicato decidiu pela realização de um culto ecumênico, com a presença mais significativa possível, para mostrar à sociedade e ao Governo que os jornalistas não aceitavam mais aquela situação. “Esse culto, na Catedral da Sé, na semana seguinte, se transformou na maior manifestação de massa do povo brasileiro contra a ditadura, desde as passeatas do Rio em 68”, lembra Audálio. Foram três os celebrantes: Dom Paulo Evaristo Arns, pela igreja católica, o rabino Henry Sobel, pela religião judaica, e o pastor James Wright, pelas seitas evangélicas.

Silêncio fala mais alto – Dom Hélder Câmara veio de Pernambuco, mas passou todo o ato em silêncio. Na sacristia, depois, ele disse que, em certas situações, o silêncio fala mais alto do que a palavra.
“De fato, com a catedral lotada, com gente do lado de fora, em todas as entradas, com aquela tensão toda no ar, com a presença de Dom Hélder Câmara no altar mor, de pé, impávido, sem dizer uma palavra, passava algo muito forte. Durante o ato ecumênico, quando coincidia de haver um intervalo maior de silêncio, era um silêncio tão pesado e tão absoluto que, se caísse um alfinete no chão, isso seria notado”, lembra Audálio. “Esse foi um ato de indignação definitiva. Ali se disse, sem ninguém dizê-lo, que o Brasil não aceitava mais essa história de esbirros do Governo chegarem a um cidadão, um pai de família, sumirem com ele, levando-o para quartéis escondidos a fim de ser interrogado, morto. A catedral ficou pequena, o cálculo foi de oito mil pessoas presentes. A indignação

que se manifestava ali não era de jornalistas, porque haviam matado um jornalista, mas sim de vários setores da sociedade, envolvendo estudantes, trabalhadores, entidades profissionais. E se a polícia não tivesse bloqueado a região da Catedral com a ‘Operação Gutenberg’ (mais de 500 policiais em 385 barreiras armadas nas principais vias de acesso ao centro), a multidão em volta da Praça da Sé seria incalculável.”
Após a cerimônia, todos caminharam lenta e silenciosamente. Em qualquer das saídas da catedral havia uma câmara estrategicamente posicionada, filmando um a um os participantes do culto. Saber que se estava sendo vigiado dava calafrios.
A partir da morte de Vladimir Herzog, o Sindicato dos Jornalistas tornou-se o endereço da resistência à ditadura. Em janeiro de 76 um manifesto assinado por 1.004 jornalistas, publicado nos jornais Unidade (do Sindicato) e O Estado de S. Paulo contestava a versão oficial de suicídio de Vladimir. Só em 1982 um juiz federal declarou a União responsável pela morte do jornalista em processo movido pela viuva Clarice e seus filhos Ivo e André em 76. A sentença foi confirmada em segunda instância, a União interpôs embargos infringentes. Enfim, em 1996 a Justiça responsabilizou o Estado pela morte de Vladimir e em 1997 o presidente da República Fernando Henrique Cardoso indenizou a família Herzog em R$100 mil por meio de decreto que beneficiou outras 59 famílias de desaparecidos políticos e de mortos pela repressão.
Quis o destino, lembra Audálio Dantas, que saísse do Sindicato dos Jornalistas o primeiro grito efetivo de basta à tortura no Brasil. “É quase uma ironia. Partiu de um Sindicato tão pequeno como o nosso um protesto que foi aumentando, foi se robustecendo, foi juntando forças até se tornar, como de fato se tornou, um grito irreprimível da sociedade civil brasileira: Chega! Não queremos mais ditadura! Queremos viver com dignidade, num Estado de Direito!”



Fontes: livro Jornalistas 1937 a 1997, de José Hamilton Ribeiro
(Imprensa Oficial do Estado S.A.),
e jornal Unidade (SJESP).