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Carga tributária: um mal crescente

Marco Antonio Abrahão

s números foram amplamente divulgados pela Imprensa. De acordo com estudo elaborado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), o brasileiro tem de trabalhar 133 dias por ano só para pagar impostos. São 4 meses e 13 dias para honrar os compromissos com o Fisco. Ou seja: duas vezes mais do que na década de 70. Em 1976, o brasileiro doava 76 dias aos tributos. Nesses quase 30 anos, a carga tributária em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) avançou 75%, de 20,89% para 36,5%.
Os serviços públicos, porém, não melhoraram proporcionalmente ao brutal aumento de arrecadação do Governo. Ao contrário, continuam precários. E o resultado disso é que além dos impostos, a renda do trabalhador está sendo achatada pela aquisição de serviços de saúde, segurança, previdência privada e educação, já que as opções oferecidas pelo Estado não satisfazem as necessidades das famílias brasileiras, nem na quantidade e muito menos na qualidade.
Dessa forma, ainda de acordo com a pesquisa do IBPT, além dos 133 dias para pagar impostos, o brasileiro gasta mais 98 dias para ter acesso a serviços de qualidade no País (na década de 70 eram 25 dias). Conseqüentemente, o contribuinte de classe média gasta 231 dias para pagar impostos e serviços.
Mesmo assim, o Governo continua apontando para o aumento da carga tributária. Economistas avaliam que, aprovada a reforma tributária proposta pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, essa carga pularia de 36,5% para 40% do PIB. Vale citar que no Brasil, o conjunto dos impostos supera o percentual da Suíça e o dos Estados Unidos (no Chile, México e Argentina a carga tributária é de 17% do PIB).
Tem razão o jornalista Gilberto Dimenstein, da Folha de S.Paulo, quando afirma que “em questão tributária, o brasileiro é tratado como um bando de ovelhas”. O colunista considera que “somente mesmo uma passividade extrema explica que se aceite pagar impostos de Primeiro Mundo e receber um tratamento de Terceiro Mundo”.
“É espantoso que, até agora, nenhum agrupamento político tenha conseguido expressar o estresse e a insatisfação da classe média – o segmento que mais paga imposto e que tem mais dificuldade de bancar serviços que, num país civilizado, deveriam ser públicos. Se o que ocorre na cidade de São Paulo, onde há uma inusitada gritaria contra impostos municipais, se tornar uma tendência nacional, há algumas possibilidades de, no futuro, diminuir o efeito ovelha”, conclui Dimenstein.
Nem sempre, porém, as queixas adiantam. É o que ocorreu no

episódio dos laboratórios de Análises Clínicas e o Simples (Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). Apesar da mobilização, a adoção do sistema, antiga reivindicação da Biomedicina, foi vetada pelo Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. E, pior: esse veto foi mantido no governo Lula, em outra clara demonstração de troca de nomes sem soluções satisfatórias diante da dura carga de impostos.
Esse apetite arrecadatório exagerado é letal. Somado aos juros altos significa retirar o pouco oxigênio que resta à sociedade para sobreviver antes de ver o País voltar a crescer. A sociedade, está mais do que claro, já passou do limite de absorção de novos aumentos de tributos. No entanto, quem fará o Brasil crescer serão as empresas, os trabalhadores, os consumidores. Daí a necessidade de o Governo ter de resgatar o País da recessão. Como afirma o jornalista Joelmir Beting em O Estado de S.Paulo, “quem ganha com o arrocho monetário, feito de crédito curto e caro é o capital volátil externo e o capital ocioso interno, e quem perde é o capital produtivo ao longo de sua vasta correia de transmissão – investimento, inovação, ampliação, projeto, produção, serviço, emprego, salário, encargo, tributo, confiança, dignidade e futuro”.
O comentarista pede providências: “Está na hora de interromper ao meio uma terapia equivocada que paralisa o setor privado, endivida o setor público e empobrece a Nação.” Para Beting, essa austeridade monetária, “até por overdose, é um veneno puro fantasiado de remédio duro”.
O que o País aguarda, o que a sociedade espera – além da queda dos juros, atualmente no patamar de 26,5% ao ano – é uma reforma tributária sem aumento de impostos, mas sim elaborada de forma inteligente tendo o condão de estimular a produção e o consumo, gerando emprego e renda. Como o próprio Lula já afirmou, é necessário “incentivar o desenvolvimento, única forma de gerar empregos.”
Há dois meses, neste mesmo espaço, afirmamos: está mesmo na hora de o presidente pôr o dedo na ferida para que os resultados comecem a aparecer. As empresas, os trabalhadores em geral, os prestadores de serviço (os profissionais biomédicos entre eles), a sociedade, enfim, já não agüenta mais! O momento de um basta já passou há muito tempo. Portanto, o que nos resta é pressionar políticos e dirigentes do País em todas as esferas – municipal, estadual e federal – com o objetivo de reduzir substancialmente esta carga tributária.


Marco Antonio Abrahão
é presidente do CRBM – 1ª Região