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Vamos acabar com a guerra!

Wilson de Almeida Siqueira

elo título da nossa coluna você deve estar pensando: o Wilson esta desatualizado pois até hoje não sabe que a guerra dos Estados Unidos com o Iraque já acabou.
Só que não é desta guerra à qual me refiro, falo da guerra que enfrentamos todos os dias. A guerra sem tréguas, para a qual não usamos tanques nem capacetes nem armas especiais, a guerra para a qual só usamos... nós mesmos.
É a guerra do ranger de dentes, a guerra da incompreensão, da intolerância, da falta de amor, de dignidade e de ética.
Nunca estive tão certo em afirmar que, infelizmente, vivemos em uma guerra constante; é a “guerra nossa de todos os dias“. Se o mundo está ruim é por causa desta guerra, que gera as monstruosas guerras.
O gesto de amizade e cordialidade, amor e afeto é apanágio de poucos. Tudo está difícil, é bem verdade: o sustento da família, a moradia, o ganho honesto do trabalhador (quando consegue trabalhar), enfim o dia-a-dia é penoso. Compromissos vários, diálogos, muitos problemas à resolver, numa luta diária e árdua. Mas, daí a viver em guerra diária, só vai piorar a situação.
Os pais ensinam os filhos a se defender — é obrigação. Muitos, porém, só se preocupam em preparar os filhos para a “guerra”, se esquecendo de ensinar princípios nobres como educação, honestidade, amor ao próximo, tolerância, dignidade e ética. Isto também são “armas” para o seu dia, só que estas não ferem.
Preparando os filhos com estas “armas” certamente os pais não verão seus filhos cultivando inimigos e terão certeza de que não apenas os ensinaram a viver como a conviver.
Vamos acabar com a guerra! A guerra do cotidiano, esta guerra em que basta você dobrar a primeira esquina com o seu carro e já encontra um inimigo. A guerra da intolerância no trabalho onde muitos, para crescer, soterram os colegas e usam os entulhos como escada.
Vamos acabar com a guerra! Vamos ajudar com a nossa parcela de cidadãos os que têm as condições de fato de acabar com a violência, com as drogas, com a prostituição. Vamos acabar com a guerra saindo de nossas casas “armados” com a paz, não a paz superficial que se desvanece facilmente, mas sim a paz intrínseca, a paz que conseguimos levar no âmago bem dentro de nossos corações.
Vamos acabar com a guerra! Com certeza, um dia, poderemos olhar para o lado e não termos medo de quem está no outro carro, ou na moto, e não olharmos para a defesa, e sim para o cumprimento. Se todos fizerem um pouco, a vida há de ser melhor para todos. Muitos já conhecem a história do passarinho que enchia o bico de água e a jogava sobre um incêndio, quando riram dele ele falou que se todos fizessem a mesma

coisa, com certeza o incêndio se apagaria.
Vamos acabar com a guerra gerando a paz, a mesma que você irá ensinar para seu filho e ele a semeará entre seus colegas. É a paz que o educador deve ter em sala de aula, educando com dignidade e ética, sabendo o quanto ele representa para o jovem, ávido de seus ensinamentos.
O grito ecoa e, na maioria das vezes, não se sabe o que foi gritado; a voz branda e suave faz com que todos entendam o que foi dito.
Gosto sempre de citar o admirável e ilustre professpr Miguel Reale que, em seu livro Lições Preliminares de Direito, ensina: “...O homem bem formado, que faltou a um ditame ético, encontra em si mesmo a censura, uma força psíquica que o coloca na situação de réu diante de si próprio. É o exame de consciência uma forma de sanção dos ditames morais. É a sanção do foro íntimo... Há, entretanto, aqueles que nem sequer se arreceiam do exame de sua própria consciência, por estarem tão embrutecidos que nela é impossível o fenômeno psíquico do remorso... Nem faltam os que nenhuma importância dão à razão social, por se considerarem, às vezes, superiores ao meio em que vivem, como seres acima do bem e do mal: ou, então porque na própria ‘psique’ não haverá repulsa àqueles motivos de conduta imoral, que atuam, poderosamente, sobre o homem normal.“
Vamos acabar com a guerra! Depende de você fazer um amigo ou um inimigo... O resultado desta escolha você sabe qual é. Não adote o ranger de dentes, você irá desgastá-los e poderá ser cara a restauração. Sorria, que é mais econômico, você não terá tantas rugas... os cremes para tirá-las também são caros.
Vamos acabar com a guerra começando em casa, no trânsito, no trabalho, na sala de aula. Tenha paciência, cada um entende aquilo ou aquele que esteja na sua faixa de evolução, nunca acima. O sol não tem platéia ao amanhecer e dá o seu espetáculo. Seja como ele: não se importe com a platéia, se é grande ou pequena, nobre ou humilde, ou que seja apenas de um espectador, dê o seu espetáculo de ética, de educação e de nobreza. O amor é a força mais humilde, porém a mais poderosa. Qualquer que seja a sua função, você poderá se renovar a cada dia, tentando fazer sempre o melhor.
Vamos acabar com a guerra! Você tem muitas “armas” para isto: nos seus atos, nas palavras... no espelho!
Até a próxima...


Wilson de Almeida Siqueira
é vice-presidente do CRBM em São Paulo e presidente da Comissão de Ética e Docência.