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A Biossegurança e o controle das
doenças emergentes


Bernardo E.C. Soares
CRBM 0580
uando agentes patogênicos ocorrem em quantidade suficiente e inesperadamente encontram uma população suscetível e condições ambientais favoráveis, sem obstáculos efetivos à sua disseminação, temos o surto de uma infecção dita “emergente”. Assim, microrganismos que retornam depois de longos períodos com as propriedades patogênicas potencializadas podem tornar-se emergentes, revitalizados por mecanismos de variação genética ou alterações moleculares aliados às condições sociais e ambientais. Essas doenças continuam a desafiar o panorama global da saúde pública, atingindo principalmente os países em desenvolvimento, mesmo com todo o moderno aparato científico voltado para a elaboração de estratégias de controle e terapêutica das infecções.
Além do sucateamento das condições sociais e a política deficitária de investimentos em saúde pública que vêm contribuindo para o ressurgimento de doenças já tidas como controladas, há ainda um crescente desinteresse mundial pela pesquisa médica e pela capacitação da infra-estrutura farmacêutica pública e privada direcionada a essas doenças, consideradas como típicas de países menos favorecidos e por isso cada vez menos consideradas. São infecções como a malária, as leishmanioses e as tripanossomíases, que vêm requerendo mais estudos e apoio terapêutico da comunidade científica global, sendo denominadas pela Organização Mundial
de Saúde de doenças “negligenciadas”.
Hoje, o paradigma dos surtos epidêmicos
mudou; em um surto infeccioso tradicional, os casos eram originários de um pequeno grupo com alta incidência e as autoridades sanitárias locais investigavam e detectavam o problema.Nas doenças emergentes atuais uma infecção difusa, mesmo com baixa incidência, pode disseminar por uma área bem mais ampla, a nível regional ou mesmo internacional; o diagnóstico pode ser feito pelo quadro epidemiológico, às vezes registrado apenas como um aumento esporádico no númeo de casos e detectado somente devido aos modernos métodos de sondagem molecular disponíveis nos laboratórios de monitoramento. A utilização de técnicas de “epidemiologia molecular” permite prever e atuar com precisão nos casos de surtos infecciosos, utilizando as mais avançadas técnicas da genética microbiana para identificar e planejar atividades profiláticas para os agentes etiológicos envolvidos, mas na maioria dos casos a intervenção emergencial ainda baseia-se em sólidos fundamentos de epidemiologia clássica, com prognósticos baseados em estudos de amostragem e apoio estatístico, pois nem sempre o início das providências pode esperar pela confirmação labora torial do agente ou mesmo pelo aparecimento do microrganismo nos pacientes em quantidades detectáveis pela tecnologia médica.
Os objetivos da atuação terapêutica
imediata contra as doenças infecciosas seriam a interrupção do processo de disseminação do agente e a adoção de medidas preventivas para impedir surtos, pois o conhecimento básicogerado no âmbito biológico, social e econômico sobre os sistemas de saúde e seus determinantes epidemiológicos exerce papel preponderante no controle efetivo das doenças infecciosas. Da mesma forma, o desenvolvimento de métodos de detecção e diagnóstico atua decisivamente na prevenção e no planejamento de intervenções sistemáticas, apoiadas por técnicas de monitoramento em larga escala para a atuação multidisciplinar no combate às infecções. São necessárias ações de integração entre as práticas de laboratório e a investigação epidemiológica para apoiar ações de saúde pública com base na pesquisa aplicada.
Apesar dos progressos terapêuticos e da profilaxia vacinal disponível em alguns casos, a principal estratégia de prevenção ainda é a interrupção do ciclo biológico do agente etiológico principal. Aliada à investigação epidemiológica, as atividades do laboratório biomédico são essenciais no processo de avaliação e manejo dos riscos de saúde relacionados ao desafio das doenças infecciosas emergentes.
Conforme recomendações do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, EUA, a prevenção dessas infecções demanda instalações apropriadas compatíveis com o nível de biossegurança
"Os objetivos da atuação terapêutica imediata contra as doenças
infecciosasseriam a interrupção do processo de disseminação do agente e a adoção de medidas preventivas para impedir surtos, pois o conhecimento básico gerado
no âmbito biológico, social e econômico sobre os sistemas de saúde e seus determinantes epidemiológicos exerce papel preponderante no controle
efetivo das doenças infecciosas."
correspondente, a aplicação de medidas de quarentena, além de treinamento e uso de material de proteção individual e coletivo que possa bloquear as portas de entrada da infecção.
Todos os passos do trabalho com material infectante, seja nas unidades de saúde, nos laboratórios ou no campo devem obedecer um rigoroso protocolo desde a apropriada coleta de amostras e seu transporte seguro para o laboratório até a cuidadosa obtenção de dados clínicos e informações úteis à vigilância sanitária.
Em todos os casos, o trabalho preventivo no controle das infecções consiste na padronização de procedimentos e treinamento dos profissionais, que devem estar familiarizados com os principais procedimentos, precauções e riscos inerentes à sua atividade no manuseio de materiais químicos ou bioinfectantes e conhecer a conduta adequada nas emergências, a fim de evitar o escape não-intencional de material infectante. A responsabilidade pela identificação dos possíveis riscos e a implementação de ações para sua redução a níveis aceitáveis é tarefa compartilhada por todos os membros da equipe, que tem direito à
informação e ao treinamento adequado para o manejo desses riscos, sempre considerando os aspectos éticos das atividades envolvendo seres humanos, regidos pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.
O mapeamento de biossegurança de todas as atividades é fundamental, avaliando os riscos das tarefas profissionais a serem realizadas, reunindo todos os equipamentos de proteção necessários e verificando a vacinação, cuidados médicos e planejamento de medidas de rápida dispersão em caso de emergência.
O atual contexto da saúde coletiva aponta para as ciências ambientais no controle das variáveis interdisciplinares dos agentes patogênicos envolvidos. Por isso, ações públicas conjuntas de biossegurança e de avaliação epidemiológica são requeridas para impulsionar o esclarecimento diagnóstico e o planejamento terapêutico de doenças emergentes no Brasil, definindo um sistema de vigilância epidemiológica baseado em políticas de fortalecimento institucional e priorizando a criação de um sistema de informações científicas capaz de implementar ações estratégicas de prevenção em todos os níveis.

Bernardo Elias C. Soares
é biomédico formado pela UERJ em 1980, mestre em Biologia Parasitária pela Fundação Oswaldo Cruz RJ, atuando em Microbiologia.Correspondência:Núcleo de Biossegurança - FIOCRUZ.
Av. Brasil, 4036, sl. 715 Expansão 21040-361, Tel. (21) 3882- 9158, Fax (21) 2590-5988, e-mail:bernardo@fiocruz.br

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CENTER FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION/CDC (1999) Biosafety in Microbiological and Biomedical Laboratories. 4th Ed., Atlanta GA. U.S.A.
CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE/CNS (1996) Resolução 196/96. Regulamentação da Bioética no Brasil. CNS, Brasília - DF. 10 Out. 96
SOARES, B.E.C. (1998) “Biossegurança no Trabalho de Campo” p. 213-219 in Oda, L.M. & Avila,S.M. (org) “ Biossegurança em Laboratórios de Saúde Pública, ed. Ministério da Saúde, Brasília DF.
WORLD HEALTH ORGANIZATION/ WHO (2002) Global Comission Research into Neglected Diseases - Special Programme for Research & Training in Tropical Diseases Geneva - CH. TDR News 67: 16-17. http://www.who.int/tdr