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Falso dilema
Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak

ecentemente, aconteceu debate em jornal de São Paulo, onde médico especializado em administração de recursos empregados em saúde mencionou o que é absolutamente real, ou seja, não temos como atender, nesta área, a todas as demandas. Logo depois, um cidadão, referindo-se a determina doença genética rara, mas com tratamento muito caro, opinou. Deixou ele claro a sua visão, respaldada pela nossa Constituição e pela Justiça: todos os brasileiros têm direito à assistência quanto aos problemas de saúde, custe o que custarem, desde que exista evidência de eficiência.
Ambos os pontos de vistas estão corretos e não implicam, como possa parecer, em conflito insolúvel. A assistência a todas as patologias, caras ou baratas, sejam elas quais forem, está ligada à visão que adotamos de nossa sociedade e que é bem diferente, por exemplo, da norte-americana. Somos muito mais solidários neste aspecto e não consideramos que os recursos médicos devam ser como qualquer mercadoria destinados apenas aos que podem pagar por eles. Nossa cultura é muito mais européia ou canadense neste aspecto e coaduna-se muito com a idéia de cidadania que defendemos e da pujança do País que queremos. Não apenas no que concerne à saúde.
Um dos impactos do programa Fome Zero é a vergonha que sentimos ao perceber que aqui existam pessoas que passem fome – isto é inaceitável para mais de 99% dos brasileiros. Não pretendemos analisar se alguém passa fome por ignorância, por preguiça ou por qualquer motivo: julgamos que, por ser humano, qualquer cidadão desta Nação que tenha fome possui o direito de comer e é obrigação da coletividade garanti-lo. O mesmo vale para doenças: não estamos preocupados se a doença é genética ou se o paciente tem alguma parcela de culpa a propósito do seu mal – como se passa com os distúrbios derivados do tabaco, ou se o seu estilo de vida favorece o aparecimento de enfermidade, como no caso da infecção pelo vírus da imunodeficiência adquirida (HIV). O sucesso de nosso excelente programa de assistência a acometidos pelo HIV mostra isto: felizmente não convivemos no Brasil com a direita raivosa que nos Estados Unidos da América coloca-se frontalmente contra programas deste tipo. Nossa direita é muito mais hipócrita e, neste caso, preferimo-la assim: afinal, como diz um provérbio, hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude. Ninguém deve ser privado da assistência médica e medicamentosa porque não conta com recursos para obtê-la. Inclusive, vigora entre nós um Sistema Único de Saúde (SUS), que dá a todos os que dele participam – e que são todos os cidadãos, contribuam ou não para a Previdência Social, o acesso à tecnologia médica. A garantia disso está solidamente embasada na Constituição e vamos dizer já que concordamos plenamente com tal conduta.
Como resolver o problema do atendimento e das demandas que aumentam cada vez mais? Precisamos encarar a justa conveniência dos procedimentos médicos e da assistência farmacêutica dentro do contexto geral do que a população

precisa, estipulando prioridades. Há, dentro do governo todo, numerosas fontes de despesas e, seguramente, muitas delas podem ser comprimidas para que se garanta o apoio à saúde.
Precisamos também tornar totalmente racional e transparente o uso das verbas para o setor que agora abordamos. Exemplos mostram que a burocracia da área cria problemas ao invés de resolvê-los. Citamos dois. Um burocrata em Brasília, na intenção de melhorar a segurança do sangue transfundido no Brasil, que já é muito boa, resolveu obrigar o uso de teste molecular para despistamento da infecção pelo vírus C da hepatite e pelo HIV. Isto eleva os custos de uma transfusão às alturas, com melhora discreta da eficiência da triagem, porquanto sucederá prevenção de um caso de transmissão em 200.000 procedimentos ou mais. Foi marcada data para o início obrigatório da medida e, depois, percebeu-se que nossos serviços públicos não se encontravam equipados, inexistindo, outrossim, verbas para a execução dos exames. Adiou-se uma vez a exigência da norma, adiou-se outra – e provavelmente vão adiar de novo. Inicialmente, só existe um fornecedor dos reativos indispensáveis.
Outra brilhante idéia de burocrata brasiliense é a obrigatoriedade da triagem neonatal para fibrose cística. Trata-se de técnica que propicia enorme quantidade de falsos positivos, promovendo a angústia familiar, e os procedimentos que permitem a análise genética desta doença, além de caros, não detectam todas as mutações que podem fornecê-la. Daí advém grande confusão entre familiares e pediatras. Tudo isto, em 99,9% dos casos, a troco de nada. O nosso SUS paga, no entanto, relativamente bem pelos testes genéticos e este dinheiro é, na sua imensa maioria, desperdiçado.
Num país como o nosso, temos obrigação de investir em todas as demandas necessárias em saúde, mas, igualmente, de mostrar objetivamente, e com transparência, que estamos fazendo o necessário. Podemos, com certeza, fazer mais com as verbas disponíveis, bastando não gastá-las em normas inadequadas, na burocracia em si e nos meios, mas não nos fins. Temos também o direito de pedir ao governo a priorização correta dos recursos, evitando dispêndios em coisas menos nobres para investir no que é nosso dever como cidadãos de um Brasil solidário. Por isto dizemos que ambos os lados têm razão, que o dilema é falso e que pode ser resolvido com eficiência administrativa, transparência e debate público. É preciso perguntar à população se ela quer dispor obrigatoriamente de determinados componentes, instituições ou estruturas.
Vale acrescentar a prejudicial atuação de carreiristas, de políticos despreparados ou oportunistas e dos que conturbam tendo comportamentos volúveis. O médico que instigou o debate sobre o dilema, arvorando-se em defensor da exclusiva valorização do uso de atenções básicas, foi ardoroso da privatização do Hospital das Clínicas de São Paulo, que instituiu dupla porta para o atendimento, sendo uma delas, desprimorosa, destinada à enorme plêiade dos comumente desamparados


Os autores são médicos e professores universitários