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O teatro nosso
de cada dia

Wilson de Almeida Siqueira

á os galos cantavam ao amanhecer, porém um véu tênue de noite ainda cobria o dia que vagarosamente chegava. Até um instante em que o sol, imponente com seus luminosos raios, deflagrou as nuvens que se aqueciam com a sua passagem e, tal qual súditos, faziam reverência ao astro-rei. Era a chegada do dia que, iluminado, se nos apresentava.
A natureza engalanada e vaidosa, como é próprio das mulheres, preparava-se em um cenário lindo, tal qual um palco iluminado. E era realmente um palco maravilhosamente decorado que jamais algum teatro do mundo ousou fazer igual. Era o dia que começava radiante... o palco da natureza à espera de um ator ou uma atriz.
E o artista é você! Ao começar o dia, você estará entrando no palco que ele lhe preparou. Aí, cabe a você dar o seu espetáculo. A platéia é sua: os seus familiares, seus vizinhos, o jornaleiro, seus amigos, seus colegas, seus alunos, seus professores, seus superiores e subalternos, enfim, até o gato da vizinha o assiste, porque você é o ator, e na escolha do seu personagem, você irá representá-lo por todo o transcorrer do dia neste cenário móvel.
Já disse que é você que escolhe o personagem que irá representar neste palco, ou melhor, neste dia; você poderá ser um vilão, um homem mau sem escrúpulos, sem índole; poderá representar um palhaço ou um mentiroso, mas poderá escolher também ser bom... honesto, amigo, ético. Já disse: você é o ator.
Neste palco mavioso que é o dia, que está à sua disposição, você poderá fazer alguém sorrir ou chorar, amá-lo ou odiá-lo, seja a sua arte interpretada em monólogo ou diálogo, mas interprete bem. Olhe nos olhos dos que o estão assistindo. Cuide para que seu personagem seja sincero em qualquer que seja o seu papel. Neste teatro, onde você estará todos os dias, tente representar bem, reverencie a platéia, pois ela o estará assistindo sempre . Não o faça apenas pelos aplausos, pois o melhor aplauso é aquele que soa de dentro da alma, o aplauso do dever cumprido.
Seja você um personagem de Aluísio Azevedo, talvez o João Romão de O Cortiço, ou o Quintanilha da obra de Machado de Assis,

ou mesmo o Rubião ou Quincas Borba, seja qual for, represente bem, com honestidade, com ética...
Aproveite este imenso palco que o dia lhe oferece e tenha um bom desempenho. Procure se ataviar no melhor espelho que existe que é o da sua própria alma. Vista-se do melhor — interna e externamente — para agradar a platéia, sem se esquecer, porém, que a sua indumentária interna , deve ser a mais sincera, aquela que não cansa a platéia, aquela que não desbota e não rasga; um traje honesto e ético, já que a ética é a investigação geral sobre aquilo que é bom, e tem por objetivo facilitar a realização das pessoas, pois ela pretende a perfeição do ser humano.
Interprete com ética, entre no palco e dê o seu espetáculo, agradeça a dádiva da natureza com pureza.
Foucault dizia que a ética grega é uma estética ou uma poética, preocupando-se com a arte de viver, com a elaboração de uma vida bela e boa. Já Aristóteles, o grande mestre grego que viveu há uns 2.300 anos, dentro da sua tradição filosófica, analisa eticamente o homem como sendo um animal político, que tem linguagem e, muitas vezes, age logicamente. Para ele, então, o ideal seria o homem virtuoso, significando a virtude uma força, um vigor onde o mais virtuoso seria o mais capaz de realizar-se como homem, atingindo, assim, a felicidade, meta procurada por todos. Aristóteles dizia, então, que o homem precisa assistir a algumas representações teatrais para, participando das tragédias, crescer moralmente.
Bem, mas dizíamos que você aqui é o ator, o palco o espera, e ele, é o dia que nasceu maravilhoso, entre em cena, a platéia é toda sua. Escolha o personagem, vista a roupa adequada, pinte-se, seja herói ou bandido, e quando o sol estiver se pondo e a noite — tal qual a cortina de um palco se fechando — estiver chegando, volte-se para a platéia e ouça o que ela tem para lhe dar, e veja se você fez por merecer: vaias ou aplausos!
Até a próxima...


Wilson de Almeida Siqueira
é vice-presidente do CRBM em São Paulo e presidente da Comissão de Ética e Docência.