doença
de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma
cruzi habitualmente veiculado pelas fezes de inseto estritamente
hematófago popularmente conhecido como barbeiro, chupança
ou vinchuca, tendo também outras denominações
menos usadas. É endemia parasitária muito disseminada
em vários países americanos. Recentemente, em virtude
de vontade política e destinação de recursos
adequados, essa forma de transmissão foi amplamente controlada,
só restando pequenos focos de baixa expressividade. Contudo,
o T. cruzi pode infectar pessoas por meio de mecanismos diferentes
do clássico antes citado e, agora, alguns deles passaram
a ficar mais em foco. Rememoramos que tais tipos alternativos
de propagação presentemente são: congênita;
por transfusão de sangue ou transplante de órgão;
acidental em laboratório; através de leite materno;
pela via oral. Existem especulações sobre possibilidades
diversas dessas, que sem dúvida carecem de melhores documentações
ou não têm significado em saúde pública.
No momento, a via oral está em evidência e ganhou
intensa divulgação no Brasil. Caldo de cana, em
Navegantes, no Estado de Santa Catarina, causou o adoecimento
de 25 consumidores e três deles morreram.
Já em 1921 foi cogitada a difusão oral do T. cruzi.
Depois vieram confirmações em animais e a verificação
de infecção após pipetagem desastrada em
laboratório ou ingestão de leite materno.
O acontecimento recentemente detectado em Santa Catarina nos leva
a relatar, resumidamente, eventos congêneres.
- 1965; Teotônia, Rio Grande do Sul; escola; 17 adoecimentos;
alimento; gambá infectado na área.
- 1969; Belém, Estado do Pará; quatro adoecimentos.
- 1986; Catolé do Rocha, Estado da Paraíba; encontro
familiar em fazenda; 26 adoecimentos; um óbito; caldo de
cana; presença de |
barbeiros e alta taxa de gambás infectados nas vizinhanças.
- 1997; Mazagão (Rio Bispo), Estado do Amapá;
15 adoecimentos; suco de açaí. Mais tarde percebeu-se
algo semelhante no Estado do Pará.
O que sucedeu a partir de fevereiro de 2005 em Santa Catarina
conta com a apuração de alguns fatos que, talvez,
permitam esclarecer como adveio a contaminação
da cana moída para a obtenção de caldo.
O começo teve nexo com uma barraca localizada em Navegantes
e aí, no dia 12 do mês mencionado, os infectados
ingeriram a garapa incriminada. Em locais próximos, por
enquanto, encontraram barbeiro e gambá albergando o T.
cruzi, além de colônia do inseto em palmeira. Todavia,
a exata causa do problema continua indefinida.
A propósito desses surtos é comum tentar incriminar
barbeiros, que, por maneiras variadas, poderiam chegar ao local
da moagem da cana ou também insetos e animais silvestres,
como o tatu e o gambá por exemplo (estes por vezes têm
o T. cruzi nas glândulas anais). Com exceção
do visto em Catolé do Rocha, para as demais eventualidades
não se chegou a explicar satisfatoriamente a chegada
do parasita a alimento, a suco e à garapa. Cabe a pergunta:
quem sujou? Diante das incertezas lembremo-nos das estripulias
de ETs, duendes e sacis-pererês.
Sem brincadeira, frisamos que é indispensável
encarar as formas alternativas de transmissão do T. cruzi
como importantes, valorizando os perigos inerentes a eles. Impõe-se
aprofundar as pesquisas pertinentes e divulgar as medidas preventivas
cabíveis para que não assumam dimensão
indesejável.

Leila Montenegro Silveira Farah
biomédica especialista em Genética e Citogenética
Humana, é conselheira do CRBM e coordenadora da Comissão
de Genética
|