endoscopia digestiva
pode ser um fator de risco para a transmissão do vírus
da hepatite C (HCV). É o que sugere uma pesquisa realizada
pela biomédica Thaís Tibery Espir, aluna de mestrado
do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde
(INCQS) da Fiocruz. Foram estudados cerca de 250 indivíduos
que procuraram o Instituto Estadual de Hematologia (Hemorio),
no Rio de Janeiro, com a intenção de doar sangue.
Thaís verificou que existe uma tendência de transmissão
do HCV por endoscopia digestiva, embora ainda seja cedo para afirmar
que essa transmissão ocorra realmente. De acordo com o
estudo, o risco de estar infectado pelo HCV seria três vezes
maior entre os indivíduos que foram submetidos a uma endoscopia
digestiva.
Esse resultado preliminar foi apresentado no 1º Simpósio
Pan-Americano de Vigilância Sanitária e publicado
na Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia. Sob a orientação
do médico Luiz Amorim, chefe do Serviço de Hemoterapia
do Hemorio, e do pesquisador Cláudio de Moraes Andrade,
do INCQS, Thaís já teve seu trabalho aprovado por
uma banca prévia. A biomédica, que trabalha no Hemorio,
defendeu sua dissertação de mestrado no início
de agosto.
A endoscopia é um procedimento no qual o endoscópio,
aparelho constituído por um tubo acoplado a lentes e a
um sistema de iluminação, explora visualmente o
interior do organismo. No caso da endoscopia digestiva, como o
próprio nome já diz, o aparelho é usado para
examinar o aparelho digestivo.
Eventuais escoriações no tubo digestivo, já
existentes ou provocadas pela passagem do endoscópio, liberam
secreções e sangue fluidos que podem conter
o HCV e contaminar o equipamento. Segundo a hipótese de
Thaís, quando uma pessoa infectada pelo vírus se
submete a uma endoscopia digestiva e, depois, o endoscópio
não é higienizado de forma adequada, o próximo
paciente a fazer o exame corre o risco de contrair o HCV.
Estatística Os dados coletados até
agora sustentam essa hipótese de Thaís. Dos 253
indivíduos estudados, 54 eram portadores do HCV e 199 não
estavam infectados. Entre os |
portadores, 25,9% haviam
se submetido a uma endoscopia digestiva antes do diagnóstico
da infecção pelo HCV. Entre os não-portadores,
apenas 11,6% já tinham feito esse tipo de exame. A prevalência
do HCV foi maior nos indivíduos com antecedentes de endoscopia
digestiva, em comparação com os que nunca passaram
pelo procedimento. E a diferença foi estatisticamente
significativa, frisa Thaís.
Antes que um indivíduo se torne doador, verifica-se se
ele é portador de alguma doença transmissível
pelo sangue. Uma pessoa infectada pelo HCV não pode doar
sangue. Desde 1993, o teste do HCV é rotina nos bancos
de sangue. Logo, a transmissão do vírus por transfusão
diminuiu, mas os casos associados a outras possíveis fontes
de risco para infecção relação
sexual com vários parceiros sem uso de preservativo, seringas
compartilhadas entre usuários de drogas e instrumentos
usados em cirurgias, tatuagens e piercings continuaram
aumentando, afirma Thaís.
Para identificar as formas de transmissão do HCV, Thaís
solicitou aos participantes do estudo que respondessem a um questionário.
Alguns dos portadores do HCV não se encaixavam em
nenhum dos grupos de risco conhecidos, mas tinham feito endoscopia
digestiva, argumenta a biomédica.
Thaís visitou cinco serviços públicos que
oferecem endoscopia digestiva. Por ocasião da pesquisa,
nenhum deles havia recebido vistoria da Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa). Apenas um dos serviços
tinha um procedimento operacional padrão para a limpeza
e a desinfecção do endoscópio.
Não há vacina contra o HCV e o tratamento da doença
tem um custo elevado. As pessoas têm que se prevenir
e, para isso, precisam conhecer as formas como a hepatite C é
transmitida, ressalta Thaís. As pessoas não
devem temer a endoscopia digestiva. O exame tem que ser feito
caso necessário. O problema é que ele virou moda
e passou a ser solicitado mesmo quando dispensável,
opina. No doutorado, Thaís pretende acompanhar pacientes
antes e depois da endoscopia digestiva, para determinar a taxa
de conversão de soronegativos em soropositivos para o HCV.
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