
Brasileira chefia laboratório em um dos maiores hospitais dos Estados Unidos.
“Confesso que estou orgulhosa por estar aqui, sobretudo por ser biomédica, brasileira e poder fincar a nossa bandeira nos Estados Unidos.”
Kelly Silveira de Athayde
A competência do biomédico brasileiro ultrapassou as fronteiras do País. Desde o início de setembro, Kelly Silveira de Athayde é supervisora do Laboratório de Andrologia e Banco de Sêmen (Andrology Laboratory & Sperm Bank), além de ter assumido a coordenação do Programa de Treinamento de Técnicas de Reprodução Assistida (ART Training Program), ambos na Cleveland Clinic Foundation, em Ohio, EUA. A instituição esteve nos últimos dez anos entre os três melhores hospitais do ranking dos Estados Unidos, sendo que a área de Urologia, divisão pela qual Kelly é contratada, é atualmente a maior do país.
“Confesso que estou orgulhosa por estar aqui, sobretudo por ser biomédica, brasileira e poder fincar a nossa bandeira nos Estados Unidos”, afirma Kelly. Como supervisora, suas atividades incluem a realização de procedimentos relacionados ao sêmen (análise seminal e testes de função espermática), desenvolvimento de novos testes, padronização de protocolos, técnicas de criopreservação de gametas e de tecido reprodutivo, treinamento de profissionais nas áreas de Andrologia, Embriologia e fertilização in vitro (técnicas como injeção intracitoplasmática de espermatozóide, assisted hatching, biópsia de embrião etc.).
Além disso, Kelly é responsável pelo controle de qualidade, documentação e processo de acreditação do laboratório junto aos órgãos governamentais (Food and Drug Administration – FDA) e não governamentais, procedimentos sem os quais não se pode atuar nos EUA.
DECISÃO DIFÍCIL — Kelly, que sempre teve interesse em exercer a profissão fora do Brasil, foi convidada no início de 2006 para trabalhar na Cleveland Clinic como fellow. No entanto, só começou a exercer seu trabalho no final de maio, porque houve dificuldades legais. Normalmente, os programas de fellowship são restritos a médicos e, por isso, Kelly teve de submeter currículo, grade curricular e histórico escolar para apreciação da instituição. “Foi uma decisão muito difícil”, reconhece a biomédica. “Deixar conquistas, família, amigos, alunos e pessoas que amo no Brasil para realizar este sonho exige mais do que dedicação profissional, é preciso amar intensamente esta profissão.”
A adaptação, do ponto de vista profissional, tem sido fácil, apesar da diferença da política administrativa do laboratório em relação ao que existe no Brasil. “As técnicas envolvidas nas rotinas dos procedimentos não são novidade para mim”, explica. A dificuldade maior é a regulamentação na área de Reprodução Assistida, bem mais restrita do que a brasileira. “Estou me familiarizando com toda esta documentação, o que requer significativa dedicação por se tratar de assunto fundamental para o funcionamento dos laboratórios”, acrescenta a profissional. Mas há grandes compensações. “É interessante trabalhar em um laboratório que dispõe de tantos recursos financeiros e tecnológicos, tendo a vanguarda da ciência ao alcance das mãos.”
Kelly Athayde formou-se na Universidade de Santo Amaro (Unisa) em 2002, mas desde 1998, no primeiro ano do curso, começou a estagiar na área de biologia celular, no Centro de Sanidade Animal do Instituto Biológico de São Paulo. “Este primeiro contato profissional me proporcionou grande experiência em cultivo celular, uma forte vivência na rotina laboratorial com ênfase em técnicas e manipulação de materiais e soluções, além de iniciação à pesquisa e iniciação científica”, lembra.
Já em 2000, passou a estagiar na área de Reprodução Humana, no Laboratório de Andrologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), área especializada na avaliação de infertilidade masculina. No ano seguinte, ainda estudante, teve a primeira oportunidade de estagiar no laboratório de Andrologia na Cleveland Clinic Foundation e adquirir mais conhecimentos na área reprodutiva. Retornando ao Brasil, assumiu a chefia do laboratório de Andrologia do HC. Em 2003, nova oportunidade de estudar nos Estados Unidos: concluiu o curso de micromanipulação de gametas (ICSI) na Baylor College of Medicine na Universidade do Texas, seguido de estágio na Embryoserv em Nova York.
Kelly participou ativamente da estruturação no Centro de Reprodução Humana do HC e assumiu a chefia do seu Laboratório de Micromanipulação de Gametas e Embriões quando foi inaugurado, em fevereiro de 2003 (reportagem publicada na Revista do Biomédico nº 52, de março/abril de 2003). Paralelamente, Kelly atuava como biomédica responsável pelo laboratório de duas clínicas privadas em São Paulo, a Androscience - Instituto de Andrologia e Medicina Reprodutiva e o Gera - Grupo de Endoscopia e Reprodução Assistida.
Em 2004, iniciou o mestrado em Andrologia e Reprodução Humana na Faculdade de Medicina da USP, que está concluindo agora. No mesmo ano, iniciou a carreira docente, assumindo a cadeira de Embriologia e Reprodução Humana da Unisa.
Apesar de todas as atividades que desenvolvia no Brasil, Kelly continuava sonhando em trabalhar no Exterior. Teve duas oportunidades, em 2001 e 2003, mas uma série de fatores a impediu. “Desde a primeira passagem pelos Estados Unidos, estabeleci relações profissionais importantes e as cultivei ao longo dos anos”, explica a biomédica, que foi favorecida pelo fato de a Cleveland Clinic possuir um laboratório gêmeo com o HC, ou seja, há um acordo de pesquisa e desenvolvimento de protocolos de operação padrão (POPs). Foi por causa desse relacionamento que surgiu o convite para trabalhar na instituição americana, o que levou a profissional a solicitar afastamento do HC e da Unisa.

Kelly Athayde (sentada, no centro) com a equipe do laboratório na Cleveland Clinic
Nos Estados Unidos não há uma profissão chamada Biomedicina. “Geralmente os profissionais que atuam em laboratório são formados especificamente em áreas de Ciência Básica, como Química e Biologia, e realizam uma prova para obter licença para exercer essa atividade”, explica Kelly Athayde. Se aprovado, ele recebe o título de “medical technologist”, algo como “médico tecnólogo”. “Estes profissionais, assim como nós biomédicos, são muito respeitados por aqui. Há a consciência de que, para o funcionamento e sucesso de qualquer órgão de assistência à saúde, é fundamental a atuação conjunta e harmônica de profissionais médicos e não-médicos”, afirma Kelly. Todos os laboratórios são chefiados por PhDs, que atuam juntamente com os médicos (MDs), que, por sua vez, respondem somente pela parte clínica e não laboratorial.
Apesar de todas essas particularidades, Kelly considera que “os biomédicos brasileiros têm condições para conquistar posições nos EUA”. Para isso, todos os documentos da faculdade, como conteúdo programático, histórico escolar e atividades curriculares e extracurriculares devem ser traduzidos por tradutores juramentados e submetidos à certificação de equivalência. Este serviço é prestado por agências oficiais pré-determinadas pelo próprio país de destino. Além disso, a instituição interessada no profissional irá avaliar detalhadamente esta documentação, currículo e perfil do candidato.
A própria instituição contratante solicita autorização para visto na embaixada, numa relação chamada de “sponsorship”, pela qual a contratante fica responsável pela sua permanência no país. “Sem isso, dificilmente um brasileiro consegue autorização para trabalhar aqui”, explica. Não são todos os vistos que permitem contrato de trabalho nos EUA, alguns tipos de permissão são específicos para estudo ou atuação como fellow, que não exige tantos documentos.
De qualquer forma, é necessário que haja interesse de alguma empresa ou instituição pelo profissional. Para que isso ocorra, valem algumas dicas, que eu não cansava de repetir para os meus alunos: freqüentar cursos e congressos, nos quais o biomédico pode entrar em contato com profissionais de outros países; investir em cursos e estágios para a formação de um currículo atraente; adquirir conhecimentos e experiência na área de interesse; estar sempre atento à literatura científica internacional, a novas pesquisas e publicações; ter fluência em língua estrangeira. Isso tudo, aliado a muita dedicação e paixão pela profissão, concorre para que o profissional biomédico se diferencie e adquira um currículo competitivo, capaz de conquistar colocação profissional de destaque não só em outros países, mas também no mercado de trabalho brasileiro.”
Dica
COMO CHEGAR LÁ


LUTANDO PELA VIDA, NO HC – Kelly Athayde teve participação na fase de estruturação no Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas de São Paulo e assumiu a chefia do seu Laboratório de Micromanipulação de Gametas e Embriões
quando foi inaugurado, em fevereiro de 2003. A equipe era composta por vários biomédicos, entre profissionais e estagiários.